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Com quantos bois se compra um iPhone? | Crônica de Irla Milena

A crônica conduz o leitor por lembranças, afetos e saberes populares….

Reportagem Clique União

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Com quantos bois se compra um iPhone? A pergunta dá título a uma crônica da artista unionense Irla Milena que convida à reflexão sobre infância, memória, educação e o verdadeiro valor das coisas. Vale a leitura.

Com quantos bois se compra um iphone?

Eu era uma criança muito otimista. Embora tivesse medo de muita coisa, meu pai sempre me encorajou de uma forma meio louca.

Cresci sob uma educação meritocrática. Quando digo isso, abre-se em mim um doce sorriso ao lembrar da infância. Meu pai sempre dizia:

— Se tirar boas notas na escola, ganha aquela sandália que tanto quer.

Então eu ia lá e arrasava. Logo estava desfilando com os sapatinhos da moda.

Aprendi a andar de bicicleta aos sete anos, um pouco tarde, talvez. Sempre tive medo de me aventurar. Hoje, aos 29 anos, este ainda é o único meio de transporte que sei conduzir.

Na infância pulei cercas de arame, subi em currais para ver os vaqueiros ferrando bois e tinha uma espécie de “dom” para fazer prosperar as criações que ganhava. Ganhei minha primeira vaca e, pouco tempo depois, já me considerava uma mini fazendeira.

Quando o vaqueiro do meu avô faleceu e ele já não tinha disposição para ir ao pasto, vendi todo o meu gado a preço de banana e comprei um iPhone absurdamente caro. Às vezes me pergunto: com quantos bois se compra um iPhone?

Se o menino é o pai do homem, certamente a menina é a mãe da mulher.

Eu sonhava em ser doutora para cuidar dos doentes. Descobri isso anos depois, quando encontrei uma carta que havia escrito aos oito anos. Nela, eu também dizia que queria ser política para dar dinheiro aos pobres. Ainda hoje rio quando releio aquelas palavras.

Doutora eu não me tornei. Mas trabalho com algo que também cura dores, as dores da alma: a música.

Desejo que as dores do mundo sejam afagadas pela sensibilidade daquilo que escolhemos ouvir e acreditar. Eu acreditei na música. Já a educação me escolheu — ou talvez nunca tenha me abandonado.

Quando comecei a lecionar em escolas públicas, ouvi certa vez minha mãe, professora por quase trinta anos, dizer:

— Eu não criei minhas filhas para serem professoras.

Mas acho que ela não percebeu que uma fruta raramente cai longe do pé.

Hoje tenho o título de Mestra em Educação, conquistado antes dos trinta anos. Acho que minha criança interior está feliz com isso.

Na verdade, esse título e todo o meu currículo pouco significam em cidades onde o reconhecimento ainda depende, muitas vezes, de apadrinhamentos políticos e indicações.

Confesso que, durante anos, foi difícil não ser reconhecida pelo meu próprio nome. Quando perguntavam quem eu era, a atenção só surgia depois que eu respondia:

— Sou neta do seu Zé Pereira, da Baixa Grande.

Era como se, naquele instante, os caminhos se abrissem.

Para mim, os grandes mestres são aqueles que carregam saberes ancestrais. São ensinamentos transmitidos de geração em geração pela oralidade. Vaqueiros que atraem o gado com o aboio, canto capaz de atravessar grandes extensões de terra e hipnotizar os animais. Quebradeiras de coco e suas habilidades com o machado. Rezadeiras que tiram quebranto, aliviam o sol da cabeça, rezam com um simples ramo até as folhas murcharem. Pessoas que sabem as horas pelo movimento do sol e se alegram quando a chuva finalmente chega ao sertão.

Com o tempo compreendi que os livros podem alfabetizar, formar e instruir. Mas a sabedoria se aprende ao lado dos grandes mestres.

Entre títulos e indicações, escolho permanecer ao lado das vozes da experiência.

Quanto ao iPhone, eu já estava me esquecendo dele.

Mas acho que vou vendê-lo para comprar vacas novamente.

Quem é a artista?!

Irla Milena é cantora, compositora, pesquisadora e educadora musical. Licenciada em Música pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Mestra em Educação, desenvolve pesquisas que articulam música, cultura popular, memória e patrimônio cultural. Atua como professora de canto, coordenadora de projetos educacionais e culturais e possui ampla experiência na formação de professores, produção cultural e desenvolvimento de ações voltadas à valorização das tradições populares.

É autora do livro O Coral dos Vaqueiros de União: Memórias, Música e Identidade Cultural e coordena projetos que promovem o diálogo entre educação, arte e patrimônio, com destaque para iniciativas voltadas às manifestações culturais do Piauí. Como artista, possui trabalhos autorais na música popular brasileira, transitando entre o regionalismo, o samba e as afrobrasilidades, levando aos palcos uma produção comprometida com a identidade cultural e a valorização das raízes brasileiras.

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