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Segredo de mãe – Por Irla Milena

                       


     Quantos segredos cabem no coração de uma mãe? Quantas lágrimas escondidas elas são capazes de derramar? …Enquanto um filho dorme, uma mãe roga por uma vida inteira de acertos, roga pela liberdade da criação sem tantas opiniões e/ou subjugações. 

       Há quem de joelhos pediu para assim ser definida, há também quem não tivera escolha. Há aquelas que não dormem esperando o filho voltar e aquelas que pelos filhos tem que acordar… pra vida…

       Quando o assunto é mãe, há exigências de currículo? Como se especializar em maternidade? Creio que seja uma matéria prática. 

      Lembro-me agora da “Mãe Ceiça”, uma mulher negra que cuidara de quase todos meus tios…eu ainda tive o privilégio de receber seus carinhos também, além de querer comer sua comida antes de ficar pronta. Lembro com uma riqueza de detalhes do cheiro do feijão semi-cozido que ela chamava de “afreventado”. Eu achava lindo aquela negra com um pano de prato amarrado na cabeça que se assemelhava a um turbante. Ela curtia um cachimbo e uma pinga…partiu prematuramente. 

      Lembro de minha mãe tentar mover montanhas para conseguir um contato com a filha dela que desapareceu sem deixar rastros, infelizmente este contato não aconteceu. Lembrar da possibilidade de um reencontro entre mãe e filha é algo que agonia meu peito até hoje pelo não acontecimento. Deve ser angustiante partir dessa vida deixando pendências… não realizar desejos… 

        Nesse exato momento eu lembro de todas as mães: as que tiveram complicações no parto, as que perderam seus filhos, as que deixaram filhos… lembro das que por ventura não conseguiram gerar mas ainda assim o instinto materno sangra…das avós… das tias… das madrinhas… 

        Particularmente eu não consigo falar de minha mãe sem que a criança que habita em mim se derreta e ative o modo dengosa. Sou muito paparicada, confesso que até hoje durmo de costelas com ela. Utilizo de subterfúgios dengosos para conseguir algumas mordomias.  

        Ela me cobra músicas, diz que nunca compus pra ela. Aliás, eu não consigo… o meu amor é algo grandioso que toma conta de meu corpo por inteiro que não me sinto capaz de narrar sobre. Costumo dizer que tenho uma dívida com ela que só será quitada se em outra vida eu retornar como mãe dela.

       A parte mais engraçada da rotina é quando eu me coloco em algumas saias justas e ela chega e fala: “eu não te criei na base do empréstimo pra isso…” , ou “cala a boca que tu calada ainda assim está errada”. Ela me quebra ao meio de amores! 

       Mas o dia mais emocionante da minha vida inteira foi minha primeira apresentação em palco, lembro que deixaram como última atração da noite, ela se empolgara e a essa hora já estava pra lá de Bagdá. Quando eu subi ao palco para cantar ela não se aguentou e apertou os dois seios e começou a gritar: “é de mamãe!”. Eu em cima do palco quiz ficar com vergonha, mas me diverti muito com aquela cena. Foram várias vezes que ela repetiu: “é de mamãe” e apertava forte os seios, no outro dia lá estavam doloridos de tanta euforia, a gente riu muito, aliás, até hoje. 

     Outro dia ela me disse que quando estava grávida de mim rezava pra que o espírito de alguma cantora reencarnasse em mim, ela contou que sonhava em ser poeta, que queria ser artista e que se sente realizada por mim. Sempre foi fácil pra ela apoiar os meus projetos, eu era quem relutava, talvez por medo da sociedade julgadora, não é fácil ser artista num país como o Brasil. 

     Uma vez eu vinha a me sentir vazia e cheguei a comentar com minha mãe que esse sentimento com certeza seria preenchido facilmente com um filho. Ela completou minha frase emocionada dizendo que sempre que pensava em arregar pra vida, vinha a imagem das filhas na cabeça, ela dissera que foram muitos os motivos para cair, para desistir, mas o que a segurava em pé era o seu cordão umbilical. Agora vou contar um segredo:  quando se é mãe, vira-se uma chave de poder feminino imensurável que se faz pulsar todas as coisas como um desfibrilador.
    

 

 

Por Irla Milena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          “Cultura é movimento, cultura é atitude, movimente-se!”

 

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