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As moedas do meu avô- conto de memória por Irla Milena

Essa semana saiu uma reportagem sobre a história da Baixa Grande e o comércio do meu avô, José Pereira da Silva. 

Resolvo então compartilhar a vocês, leitores do CliqueCultura, este conto de memória condizente com o momento.

 

 

 

AS MOEDAS DO MEU VÔ

 

Quando criança, eu gostava de ajudar meu avô a abrir sua quitanda. Muitas vezes, depois do almoço, eu nem dormia, esperando ele acordar. Eu tinha medo dele acordar primeiro do que eu e não me chamar para abrir a quitanda, até porque ele gostava de ver a gente dormindo e depois contava com satisfação que roncávamos no sofá da sala.

Abrir a quitanda com o meu avô era como um ritual sagrado. Primeiro tinha que pedir a permissão para pegar a chave, depois caminhar lentamente seguindo os passos dele até a porta oficial, que sempre dava problema na hora de abrir. Eu não sei bem explicar, mas quando se está em estágio probatório, as coisas só empenam na mão do estagiário. E meu avô não tinha paciência para estagiários como eu, tomava logo a chave apressado e resolvia com aquele jeitinho experiente, como quem diz em pensamento: “Olhaí, aprende! ”.  Então eu seguia para a próxima fase…

Quando atravessava o balcão, naquele momento eu me sentia trabalhadora, por alguns milésimos de segundos, eu caminhava como uma trabalhadora, lentamente eu enchia o peito de já respirando como uma trabalhadora, sentindo-me digna perante a humanidade, sentindo-me útil. A emoção de tirar os cadeados das portas de rolar era algo que só eu sentia.  Olha eu, no auge dos meus nove anos de idade descobrindo como era ser trabalhadora. As vezes a minha irmã ia também, até competíamos quem conseguiria abrir mais portas em menos tempo. Nem vou dizer que isso as vezes acabava em choro.

Quando o meu avô não me esperava para abrir a quitanda, eu me rebelava. Ao ouvir o som do rádio que vinha da quitanda, eu pensava chateada: “Ele nem me esperou! ” Sabe o que eu fazia? … Sabendo que ele estava lá fora na calçada a observar o movimento da PI-112, eu ia de mansinho por baixo do balcão, engatinhando e carregava uma mão cheia de bombons daqueles de frutas sortidas; morango, limão, abacaxi e banana eram os meus preferidos. Ele nunca me viu, ou fingia que não me via…não sei, nunca o perguntei.

Lembro de um outro dia engraçado, em que me rebelei, aquele tipo de revolta sem motivos. Aliás o motivo da minha revolta era não ter motivos. Na hora que ele abriu a porta do quarto, eu fui logo me apressando e pegando a chave da quitanda sem pedir, corri na frente, consegui abrir a porta de um jeito que nem fez barulho, até hoje me pergunto como consegui abrir sem a ajuda do meu avô. Acho que foi com a força da revolta e uma pitada de jeitinho de quem tinha aprendido com o experiente Zé Pereira.

Segui tão rápido que não deu tempo dele me acompanhar, fui direto à gaveta das moedas, enchi a mão e as guardei dentro da calcinha, porque eu sabia que era o único lugar que meu avô jamais teria coragem de me revistar. Dessa vez eu abri as portas de rolar tão rápido, a respiração estava arrítmica, que até me esqueci das últimas vezes que fui uma trabalhadora. Saí tão rápido pela porta da frente para não cruzar com meu avô e esqueci de cometer o crime perfeito. Mas, eu também não sabia que todo dia depois que ele chegava da cidade, antes do almoço, ele passava na quitanda para contar o apurado da manhã. Ou seja, todas as moedas dentro da minha calcinha já estavam contabilizadas. Poxa vida! Fui desmascarada!

Ele ainda demorou para mandar me chamar, eu fiquei me corroendo por dentro não sei por quantos minutos, mas para a minha consciência foi uma eternidade de aprendizado.

Quando ele me chamou para a “prova dos nove”, no momento em que eu caminhava até a quitanda eu vi o filme dos meus nove anos passar em nove segundos na minha cabeça, eu já fui achando que eram os meus últimos segundos de vida, putz…e a minha mãe nem estava lá para que eu pudesse me despedir…ela estava trabalhando.

Quando ele me perguntou se eu tinha algo haver com o sumiço das moedas, eu nem consegui disfarçar, já fui logo abaixando a cabeça e pensando como ia fazer para devolvê-las sem ter que quebrar meu cofre de barro que trouxeram do Canindé.

Foi quando ele olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Olha, você não precisa ter que carregar as moedas daqui, porque, de qualquer maneira elas são suas. Isso tudo aqui é seu…”.

Nesse dia, o meu avô, em poucas palavras, me ensinara o valor de uma moeda e o quanto vale o suor de um trabalho. Era um valor sentimental. Essa moeda que muitas vezes presencio pessoas falando ‘eu odeio receber moeda como troco”, “eu odeio quem me entrega moedas”, “andar com moeda, pesa…” etc..etc..etc…

A moeda pesa porque tem coração. É o peso da renegação. Muita gente esquece que a moeda nos salva! Na falta de uma moeda, você nem passa na catraca do ônibus. A moeda é a amante do comerciante. Eles até nos dão bombons de troco, só para ficarem com suas moedas, e ainda nos dizem que elas estão em falta, sendo que eles estão sempre a contá-las e guardá-las a todo momento, antes que alguém as vejam.

Eu comecei falando do meu avô, de trabalho e sentimentalmente me pego falando das moedas. Bem depois, eu descobri que o que eu achava que era um ritual, era na verdade uma rotina e eu nem lembro agora se cheguei a devolver essas moedas. Acho que não, ele já tinha me assegurado que elas eram minhas, e por uma neta o avô renega até a amante.

                                                                                       29/12/2020.

                                                                            Made in Baixa Grande.

 

 

 

 

 

 

 

 

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