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O futuro roubado – Crônica de Irla Milena

O FUTURO ROUBADO

 

Era uma quarta-feira de cinzas pandêmica, sem carnaval, sem graça. Fui trabalhar o tempo todo pensando em Deus, na purificação dos corpos, no jejum, na caridade, e nos sacrifícios que os cristãos fazem em reforço da fé no tempo quaresmal. Eu que nem sou muito de rezar… não por falta de fé, e sim porque esqueço mesmo. As vezes estou tão cansada que eu coloco algumas rezas no caderno do fiado de Deus, para pagar depois. Mas neste dia, excepcionalmente, eu acordei de terço na mão, parecia que estava disposta a quitar as dívidas com Deus. No trabalho, antes de articular os ofícios do dia, sempre coloco uma música, mas dessa vez o youtube estava me recomendando a missa de cinzas, achei viável clicar. Enquanto anotava alguns dados de alunos em planilhas ouvia com atenção as palavras do padre Reginaldo Manzotti na homilia de cinzas.

Após a missa continuei a trabalhar rezando, não sei explicar, era uma força que vinha de dentro pedindo que eu rezasse. Após o expediente eu ia ao salão, que era só atravessar a rua, na esquina tinha um taxi olhando para mim e eu pensei: “Ah calma é só atravessar a rua! ”, atravessei a faixa de pedestres rezando… na outra esquina um moto taxi olhou para mim e pensei: “Estou a 2 metros do meu destino final” continuei a caminhar rezando.

Enquanto eu caminhava, olhava as pessoas que também estavam a caminhar, e os velhinhos sentados em suas portas. Nesse momento vinha pensando em como o meu bairro tem casas das mais simples as mais exuberantes numa mesma rua.  Ainda rezando, acho que fiquei felizmente distraída, o dia estava bonito, chuvoso, estava tudo tranquilo… até que fui abordada por uma moto aí não vi mais ninguém!

Lá estava eu, frente a frente a um casal de assaltantes, onde a mulher era quem apontava a arma em minha direção. Naquela fração de segundos vividos em câmera lenta, vi minha vida na ponta de uma arma, meus sonhos a um gatilho, meu futuro roubado. Doeu ver minha vida na ponta de uma ama e pior, apontada por minha semelhante: uma mulher! Me deu vontade de dizer: “Calma, eu sou do teu time! ” Mas ela falou: “Não reage” então entreguei a bolsa e eles se foram.

Enquanto eles sumiam do meu campo de visão, lembrei das pessoas que já passaram por situações parecidas… Lembrei do estudante de medicina que teve a vida interrompida na parada de ônibus ao reagir ao assalto. Lembrei do Léo, um jovem que estava se divertindo em um sítio com os amigos e teve seu futuro roubado após um tiro de espingarda no peito, fatal. Lembrei da moça que estava fazendo caminhada e atiraram em sua perna de graça. Quantas mães ainda estão a esperar pelo filho que não voltou? Quantos encontram-se prostrados…

Segui ao destino final… rezando…Ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco, porra Deus! Só me sobrara o terço na mão…santa maria mãe de Deus, rogai por nós os pecadores… misericórdia senhor, que eles joguem minha bolsa em algum lugar ao ver que só tem certificados insignificantes para eles, certificados estes que resumem minha vida acadêmica em uma pasta.

Depois do susto, fiquei a imaginar a cena dos assaltantes abrindo a minha mochila e se deparando com a maior das armas contra a ignorância: Os livros. Os papeis que comprovam que o estudo é a arma mais potente. Que ao abrir minha mochila eles aprenderiam um pouco sobre organização e até se interessariam em ler o livro Sapiens, mesmo livro lido por Barack Obama, Djamila Ribeiro, que traz um relato de nossa espécie desde os primatas aos que se acham donos do mundo hoje.  Depois voltei a pensar novamente na mulher com a arma apontada para mim, será que ela é mãe? E me bateu uma tristeza em perceber que as mulheres já não estão jogando no mesmo time há muitos e muitos anos, e que os distraídos nunca vencerão a luta por bens materiais.

 

 

 

Made in Teresina, 18 de Fevereiro de 2021.

 

 

 

 

 

 

“Cultura é movimento, cultura é atitude, movimente-se!”

 

Por Irla Milena

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